O desafio das plataformas, dos governos e das sociedades

O texto publicado no The Intercept Brasil do dia 31 de março reflete sobre o caso de o YouTube vetar o impulsionamento do vídeo do episódio nº 139 do podcast Tecnopolítica.

Tanto o texto quanto o vídeo são bastante interessantes e eu recomendo que você preste atenção no que está lá.

Assistindo o vídeo, fui me lembrando de pontos que já haviam sido indicados em texto publicado lá em 2019 que versa sobre as necessárias reflexões acerca das plataformas sociais e o que fazemos com elas. Embora o texto de 2019 aborde principalmente o Facebook, acredito que a reflexão possa ser tratada para entendermos o que ocorreu e foi relatado no vídeo/podcast do Tecnopolítica e no texto do The Intercept Brasil.

Adotamos as plataformas sociais como parte importante das dinâmicas dialógicas que ocorrem na internet. Fazemos uso destas plataformas como se fossem parte de estruturas sociais inerentes às forças dos interesses financeiros de corporações. Só que elas não são. As plataformas servem a interesses das empresas que as mantém.

Estamos tão acostumados a levar nossas vidas considerando que “todo mundo está no twitter / facebook / youtube” que a gente se esquece de que estes espaços não são espaços públicos. Como dito, são aplicações privadas que pertencem a instituições comerciais que as exploram esperando um benefício financeiro. Como tais, seguem normas e atuam de acordo com os interesses das empresas que as controlam.

Isso quer dizer que as plataformas e empresas são essencialmente malvadas e que devemos evita-las? Obviamente não. Se não fossem as plataformas e as mídias sociais, muitos dos benefícios e movimentações sociais que presenciamos nos últimos anos não teriam ganhado a dimensão que ganharam ou mesmo teriam ocorrido.

Um longo caminho a seguir.
Não devemos observar as plataformas como isentas ou neutras. O mito da neutralidade deve ser definitivamente derrubado (este texto do pessoal do CHT é bem interessante neste sentido). Precisamos vencer essa ideia / utopia de neutralidade (seja de veículos de imprensa, governos e, claro, corporações).

O passo seguinte será vencer a ideia de que “já que não são neutras, estas entidades são malvadas”. Também não é bem assim. O importante é que nós – como sociedade – consigamos enxergar estas entidades como o que elas realmente são: a materialização ou operacionalização em ações de interesses de grupos de pessoas.

Nesse sentido, é de se esperar que governos, em tese, venham a representar interesses mais amplos, que visem o bem de todos aqueles que são representados por eles. Interesses específicos, vinculados aos ganhos financeiros são o que move as ações das empresas. Sabendo que são empresas que criam e mantém plataformas de mídia social, isso fica mais simples. De igual maneira, são empresas que detém o controle e pautam as ações de empresas de comunicação e mídia.

Concluindo?
Estão todos defendendo interesses. Como cidadãos podemos interferir no processo escolhendo bem os nossos representantes legislativos e executivos que vão trabalhar para defender nossos (sociedade) interesses, criando as regras e trabalhando para garantir a execução e o cumprimento destas regras.

Isso leva ao fato de que cabe aos legisladores criarem os regramentos que pautarão e regularão as ações das empresas e os governos atuarem no sentido de garantir que sejam cumpridas. No sentido específico do que venho tratando aqui, a regulação vale para empresas de mídia e comunicação e, claro, para as plataformas sociais. A regulamentação não significa e nem implica em censura ou mesmo cerceamento de liberdades. Entendo que devem ser mecanismos que garantam um funcionamento mais claro das atividades nas quais estas instituições estão envolvidas.

Se a gente escolher bem os legisladores e os nossos representantes no executivo, teremos (sociedade) mais chances de um futuro mais bacana neste aspecto.

No outro ponto estão as empresas e entidades comerciais que, no momento que o conjunto de regramentos estiver estabelecido e em operação, devem adequar sua operação e desenvolver políticas internas de trato das questões que proporcionem impactos para as sociedades em que atuam.

Se não existirem os conjuntos de normas e regras que instituam as fronteiras das ações das instituições comerciais, estas criarão as suas próprias regras, ocasionando em desdobramentos que não necessariamente agradarão ou mesmo atenderão os interesses das sociedades. As entidades comerciais, por sua vez, precisam atuar de forma a conciliar os seus interesses com aqueles das comunidades que atendem.

Refletindo sobre a ambígua característica das plataformas sociais

Logo após o massacre impingido pela Polícia Militar do Estado de São Paulo em Paraisópolis, na madrugada do dia 01 de dezembro de 2019, um vídeo começou a circular nas plataformas sociais retratando uma reunião entre moradores do Morumbi, bairro vizinho de Paraisópolis e o comando do 16º Batalhão da PM. O vídeo não foi gravado após o massacre, mas sim vem do documentário Entremundo, de Thiago Brandimarte Mendonça e Renata Jardim, feito em 2015. O trecho que circulou foi editado a partir de dois pontos do documentário. O primeiro começa aos 13:50 e depois outro pedaço vem de 18:00. Veja o vídeo que circulou.

https://www.youtube.com/watch?v=rIFmUlRC1vE

Além de mostrar o ódio que os ricos sentem dos pobres no Brasil (não imagino que isso seja novidade para você), neste trecho há uma coisa muito importante, que passou desapercebida por muitos.

Não é o cara de terno e gravata falando cidaões (sic). Não é também o cara pedindo para “limpar” Paraisópolis.

O que quero ressaltar é uma frase impactante. Acho que dá para desenvolver algo a partir dela. Na frase, destacada a seguir a partir de um trecho de uma intervenção de um morador do Morumbi, pode-se perceber algo importante para desenvolvermos uma visão um pouco mais crítica das plataformas sociais:

“(…) olha, se tivesse um Batman – eu já escrevi isso várias vezes – se tivesse um Batman; um Batman na rua, ia matar todo mundo aí”

(referindo-se, obviamente à população de Paraisópolis)

Este trecho, bem pequeno, que passou batido para praticamente todo mundo que compartilhou e reverberou o vídeo editado, me acendeu uma luzinha importante, que se relaciona com muito do que venho discutindo sobre as plataformas de mídia e de rede social.

As plataformas proporcionam a catalise de uma coisa que é, ao mesmo tempo, o maior benefício e o maior malefício da Internet como ambiente de comunicação: qualquer um pode postar o que quiser.

Obviamente as pessoas podiam postar o que queriam antes de existirem e serem amplamente adotadas as plataformas sociais. Mas estas plataformas, como disse, proporcionam uma aceleração e alcance sem precedentes, funcionando como um catalisador.

Observando a frase destacada da fala do morador do Morumbi, não é exatamente a catalise que assusta, mas o fato de este morador usar em sua narrativa o argumento de que “já escrevi isso várias vezes”. É aí que quero chegar. As plataformas sociais permitem que falemos o que bem quisermos. Recebemos, por isso, likes e comentários; que acabam nos estimulando a falarmos mais e mais porque estes ativos intangíveis evidenciam o ganho de capital social, tão importante em redes sociais (digitais ou não).

A dinâmica social que percebemos em plataformas como o Facebook, Instagram e WhatsApp é bem semelhante à que vemos no trecho do vídeo. No trecho temos pessoas que pensam de forma semelhante e que se apoiam reunidas no espaço restrito do batalhão de polícia (um grupo de WhatsApp ou de Facebook apresenta dinâmica bastante semelhante) e que aprovam ou dão suporte ao que membros falam ao concordarem balançando suas cabeças e proferirem “humhum”, “é isso mesmo” ou apenas sorrindo. Nestes ambientes, falamos o que queremos.

Se não encontramos voz dissonante ou comentário contrário ao que foi falado, acabamos por acreditar que falamos algo importante e que pode ser repetido. Esta é a dinâmica perigosa.

Como estamos vivendo um período em que discordar é algo desvalorizado e que buscamos nos aproximar apenas daqueles que concordam com a nossa visão de mundo, corremos o risco de desenvolvermos a falsa sensação de que tudo o que falamos e pensamos é correto.

O cidadão do vídeo, que se gaba por já ter escrito isso várias vezes (provavelmente em grupos do FB ou do WhatsApp), não se sente constrangido de dizer que gostaria de ver alguém matando pessoas de quem não gosta ou por quem não nutre simpatia. Como ninguém provavelmente jamais disse a ele que desejar a morte de pessoas não é uma coisa bacana, ele não se sente minimamente acanhado de revelar esta sua vontade.

E esta é a dinâmica que impera nas plataformas sociais. Como Han fala exaustivamente, a negatividade é evitada a todo custo na sociedade contemporânea. Vivemos evitando qualquer coisa que nos faça ter que discutir. A problematização de questões é vista como negativa e queremos distância disso como sociedade. Textos longos são evitados e ridicularizados. Vale o meme e o riso fácil. Embora muitos memes tragam importantes reflexões, o que se vê é o trabalho de superfície; aquilo que traz o riso fácil e rápido. Ao invés de discutir e problematizar, cancelamos.

Enfim, o comportamento natural contemporâneo é o de evitarmos embates e nos cercarmos apenas daquelas fontes de informações com as quais concordamos a priori. Tiramos conclusões rápidas a partir de títulos compartilhados. Não clicamos nos links; compartilhamos, curtimos e seguimos adiante.

Tendemos a ignorar / deixar de seguir ou bloquear aquelas pessoas e fontes de informação com as quais discordamos, apenas as pessoas que concordam com a gente vai ver o que a gente posta e acabar interagindo com nossas postagens. A ausência de vozes que discordam do que falamos acaba por criar em nós a ilusão de que aquilo que falamos é a verdade; afinal, ninguém nos disse que não é. Então, é.

Nesse sentido, não há espaço mais adequado para a perpetuação deste comportamento que uma plataforma social que me permite este controle, de ver apenas o que eu quero ver e de falar o que eu quero para que pessoas que concordam comigo possam concordar e replicar a mensagem.

Este ambiente, o ambiente de uma plataforma social, é o ambiente onde aquele morador do Morumbi “escreveu várias vezes” e que validou a sua fala estapafúrdia, que torna externa a vontade de matar as pessoas de quem não gosta. Estamos todos, de uma forma ou de outra, nos comportando como este morador do Morumbi. Não que todos tenhamos vontade de matar outras pessoas como ele, mas fato é que estamos falando apenas coisas rasas para pessoas que concordam sem querer conversar e assim o ciclo vai se perpetuando.

Eu acho que é sobre isso (e como escapar disso) que devemos conversar em 2020, e daí para sempre. Como fazer? Eis a questão. Tem uma ideia? Comente. Vamos conversar em busca de uma resposta ou ao menos um caminho.

Para quem se interessou, eis o documentário completo, publicado no YouTube pelo Le Monde Diplomatique Brasil:

https://www.youtube.com/watch?v=emj6jqA6Ywg

 

Toda vez que vejo isso. . .

Toda vez que vejo uma ação de comunicação com o argumento de que tal empresa é “o Uber de XXX” ou “o Netflix de XXX” logo me lembro das sábias palavras da Lisa Simpson quando Marge fala da universidade McGill, num episódio da 22ª temporada:

Em outras palavras, o que a Lisa quer dizer (e que todo mundo deveria ouvir) é que “qualquer coisa que se denomina “o XXX do YYY” na verdade é o nada do nada”. Isso se aplica a muitos empreendimentos que apenas se espelham em outros. Não há identidade; capacidade distintiva. . . Enfim. Não há nada que os identifique, a não ser a sua semelhança (cópia) de uma outra coisa.

Ou seja: ainda há muito o que evoluir. . . 🙂

Intercom 2019 – Belém (PA)

No último dia 06/09 estive em Belém para apresentar um texto que está em desenvolvimento em meu grupo de pesquisa sobre a plataformização da nossa presença na Internet.

O título do texto é: “Precisamos conversar sobre o Facebook: Uma provocação sobre a plataformização das atividades sociais na Internet“. Ele faz parte de um conjunto de relatos de investigações que venho fazendo nos últimos anos.

A apresentação fez parte da programação do GP de Comunicação e Cultura Digital da Intercom. Durante o resto do evento participei de diversas sessões do GP e o aprendizado foi muito grande.

O texto, como dito, está em elaboração. A versão apresentada vai receber alguns aportes a partir dos ótimos inputs que recebi no evento e será publicado no e-book que o GP lançou este ano. Aguardem novidades nos próximos meses 🙂

 

Atrás do trilho, reside um velho milho

Outro dia um colega professor falou que escutar podcasts era uma tortura. Adorei.

Como você deve saber, ouvir podcasts pra mim é exatamente o contrário de uma tortura: é um enorme prazer. Aprendo muito. Este post, então, é apenas uma desculpa para recomendar a você dois podcasts bacanas. Tudo porque os seus episódios mais recentes falam sobre milho.

O primeiro deles é o 37 graus. Para mim, um dos melhores podcasts produzidos no Brasil na atualidade. Para contexto, recomendo o episódio Pipoca, Pamonha e Canjica. O episódio mostra muito da capacidade das apresentadoras/redatoras/produtoras de contar histórias. Fala, logicamente, sobre o milho.

O outro é o podcast do Duolingo em espanhol, que, em seu mais recente episódio, claro, fala também do milho. Adoro este podcast para aprender um pouco e minimizar os micos que pago quando me meto a falar espanhol.

Aproveito a desculpa dos podcasts para recomendar a você que escute uma música que gosto muito:

Algumas coisas que percebi durante o mês que usei o Nubank como meu principal cartão

Tenho o cartão de crédito do Nubank há alguns anos e priorizo o uso dele para fazer minhas compras pela internet. Ele se mostrou muito mais bacana do que o meu cartão anterior, do Santander. O que me fez priorizar o uso do Nubank para compras online foi o fato de repetidamente o Santander negar processar uma compra legítima que eu estava tentando fazer online e eu só conseguir fazer pelo Nubank. Você pode até argumentar que o Santander faz isso por segurança. Mas aí quando apareceu uma compra suspeita na minha fatura, novamente tive muito mais trabalho de cancelar e não ser cobrado indevidamente pelo Santander do que pelo Nubank.

Por isso (e claro, por uma série de outros motivos) o Nubank tem tomado de assalto (trocadilho infame) o mercado de serviços financeiros no país.

Recentemente foi habilitada pra mim a função de débito no Nubank. Achei interessante e resolvi passar um mês usando apenas o Nubank para débito e crédito. Foi julho. Assim que recebi meu salário, fiz um saque para garantir um $$ no bolso durante o mês (emergência, etc) e transferi todo o resto pra conta do Nubank; durante o mês usei apenas o cartão para débito e crédito.

A primeira coisa que senti foi um frio na barriga. Isso porque fiquei com medo de precisar fazer saques. Afinal, cada ida ao caixa 24h para tirar dinheiro de sua conta no Nubank vai te custar 7 dinheiros. Ou seja: se você vai tirar R$10, o que vai sair de sua conta são R$17. Assustador. Ainda bem não precisei fazer isso. Obviamente, como tenho conta no Santander, poderia tirar por lá. Isso me deixou mais tranquilo. Mas enfim.

Uma outra coisa que achei bacana foi usar apenas a aproximação do cartão para pagar coisas no débito. Achei muito legal e, ao mesmo tempo preocupante. Em alguns locais, apenas aproximando a compra já era processada. Em outros, além de aproximar, precisava digitar a senha. Em alguns, embora a maquininha tivesse o indicador de pagamento pro aproximação (algo que au acabei usando muito) os operadores nem sabiam do que se tratava. Fiquei um pouco preocupado com a questão da segurança. Qualquer pessoa com meu cartão poderia fazer comprar mesmo sem saber minha senha!!

Ao longo do mês tudo correu bem. Paguei todas as compras com o Nubank e foi uma experiência bem interessante. Já nos últimos dias de julho, ao fazer uma compra na loja do Leroy Merlin, o operador do caixa puxou papo quando fui pagar com débito Nubank e ele me deu uma dica. Ele disse que estava usando a conta do Nubank também, mas que fazia diferente. Ele passava todo o dinheiro para a sua conta do Nubank como eu. Mas ele não usava o débito. Apenas o crédito. De acordo com ele, o dinheiro ficava rendendo lá na conta e, quando chegava a fatura ele pagava com o dinheiro que estava lá. Ele disse que sempre dava para ganhar alguma graninha extra assim. Achei que o caixa da Leroy era realmente muito mais esperto financeiramente do que eu. A cada dia, um novo aprendizado 🙂

Enfim. O experimento foi legal para descobrir que eu realmente não preciso mesmo do Santander para viver. Embora a questão de pagar POR SAQUE seja bem ruim, tenho esperança de um dia isso se resolver e eu passar a usar apenas o Nubank.

Refletindo sobre abandonos de debates

Recentemente o cientista político Rudá Ricci abandonou um programa ao vivo na TV Horizonte. Assista abaixo o vídeo em que o Rudá abandona o debate.

O ocorrido me fez lembrar de outro acontecimento do passado recente: o abandono de um programa de Rádio pela Márcia Tiburi. Veja abaixo o vídeo deste episódio.

Entendo que os dois casos de abandono de debate tem motivação comum: a impossibilidade de discutir com pessoas que argumentam de uma maneira semelhante. Embora coincidentemente os dois debatedores que foram abandonados defendam uma mesma pauta, não é esse o ponto.

O ponto é a maneira com a qual estas pessoas defendem suas ideias, a postura agressiva com a qual se colocam, a forma como desqualificam qualquer ponto de vista diferente dos seus e a impossibilidade total de desenvolver uma conversa sensata desta maneira. Em outras instâncias também tive muita dificuldade de debater com quem se comporta desta forma.

Não tiro a razão dos dois que abandonaram os debates. Não tenho sangue frio, não sei se eu teria a mesma capacidade. Mas, enfim.

O que quero dizer é que achei uma pena que o Rudá usou de sua titulação para desqualificar o rapaz do PSL com quem debatia. Acho que não é esse o caminho. Não é a titulação de alguém que capacita a pessoa de trocar ideias. Conheço pessoas que não tem qualquer titulação e que são extremamente coerentes e interessantes de se conversar. Ao mesmo tempo, conheço doutores que são obtusos e não sabem conversar.

Acho que o que impede que exista uma conversa legal e produtiva nestes (e em vários outros) debates é que ninguém está aberto a ser convencido. Isso é uma coisa complicada. Participar de um debate não é tentar convencer o outro. É apresentar suas argumentações e, principalmente, estar aberto a ser convencido. Se não há a menor possibilidade de você ser convencido por seu interlocutor, melhor não debater mesmo.

Enfim. Queria apenas refletir sobre isso.

A importância da palavra bem escrita

Estou escrevendo este texto depois de ver uma publicação no LinkedIn (serviço em que me pego todos os dias considerando fortemente apagar meu perfil) onde acabo de ver (pela enésima vez) alguém escrever uma frase usando o verbo haver no plural.

No livro Remote, o Jason Fried dedica um capítulo inteiro para a questão da escrita. Para ele, esta é uma questão crucial para quem vai trabalhar remotamente por causa da comunicação com seus pares. Mas esta importância não prevalece apenas para quem vai entrar na onda do teletrabalho. Escrever bem significa saber se expressar bem e defender bem uma ideia. Significa saber organizar ideias e apresenta-las de modo coerente.

Ele complementa que uma boa maneira de selecionar um bom programador para seu time é optar por aquele que escreve melhor. Texto mesmo. Porque se ele escreve um texto bem escrito, é bem provável que programação não será um problema para ele.

Particularmente, este posicionamento me impressionou um bocado quando li o livro. Isso porque o Jason Fried é um desenvolvedor. E desenvolvedores não são famosos por sua capacidade de escrita. Ainda mais por recomendarem (como no caso do Jason Fried o faz neste livro) que um dos mais (se não o mais importante) relevantes critérios de seleção deve ser a capacidade de um desenvolvedor de escrever bem um texto. O autor dá tanta importância para isso que insere em seu livro várias dicas de leituras e práticas que podem ser adotadas para que melhoremos nossas capacidades de escrita. Enfim, vale a leitura. E, claro, vale também prestar atenção e dar muito peso para a escrita.

Mas voltemos ao caso do LinkedIn. Não ao fato de eu querer deletar minha conta lá todos os dias (isso tratarei no momento apropriado), mas ao fato do erro do plural do verbo haver.

A questão não errar. Todo mundo erra. Eu erro, você erra. Todo mundo erra. A gente erra o tempo todo.

Meu ponto aqui ressaltar o cuidado que precisamos ter com os erros que cometemos e onde cometemos. O erro do plural pode parecer bobo para muita gente. Mas ele é bem diferente daqueles deslizes de digitação que cometemos quando trocamos a letra O pela letra I no teclado. E ainda tem a questão do local onde ocorreu o erro: uma plataforma voltada para profissionais. Errar o plural do verbo haver mostra algo mais grave; como dito, estrutural. Volte a entender que se trata de uma plataforma voltada para a vida profissional das pessoas. Então ver alguém em posição de liderança cometendo um erro desses não é a coisa mais legal de todas.

Enfim. O que quero dizer é que devemos tomar cuidado com nosso texto. Em qualquer circunstância, nosso texto falará muito sobre nós. E por mais que a pós-modernidade e toda sua liquidez indiquem que estes conteúdos não ficarão aqui por muito tempo; o estrago causado pode ser grande, mesmo que online por pouco tempo.

Reativando este espaço com duas dicas de leitura

Então.

Ontem vim para a Colômbia para uma série de eventos para os quais fui convidado a participar aqui na Universidad Cooperativa de Colombia – Cali. É minha segunda vez no país. Em 2014 estive em Medellin para evento semelhante realizado pela Universidad de Medellin. Será uma semana cheia e, mesmo assim, resolvi reativar este espaço de publicação. Espero que gostem.

Mas, por qual motivo escolhi reativar este blog justamente agora, com tanta coisa para fazer em um país diferente no meio de uma semana tão atribulada?Bem, porque sim. 🙂

Na verdade já fazia parte dos meus planos há algum tempo reativar este espaço. Mas durante o trajeto BH-Cidade do Panamá, eu reli o livro “The New Rules of Marketing and PR”; o que foi muito bom para reforçar algumas coisas que tinha na cabeça. Uma delas é justamente a importância destes mecanismos de publicação como este humilde blog.

Enfim. Na releitura, o autor menciona o Hubspot e, coincidentemente, também durante o voo, estava ouvindo uma edição do Marketing Over Coffee em que mencionam o Hubspot com uma dica de livro: Disrupted.

Aí juntei a fome (vontade de reativar este espaço) com a vontade de comer (indicar leituras) e estamos aqui com o blog de volta!

Aproveite então para anotar estas duas dicas de leitura:

  1. The New Rules of Marketing and PR (quem assiste minhas aulas de cibercultura e marketing digital conhece muito deste conteúdo, hehe)
  2. Disrupted (que comecei a ler hoje mesmo) 😀

Enfim. Depois me digam o que acham destes livros.

Sobre o golpe de 2016

Um pouco de contexto

Replico aqui (porque, afinal, o site é meu), minha participação em uma discussão em uma plataforma social que gostaria de deixar registrada publicamente para a posteridade. Não que isso vá ser apagado do Facebook, mas a dinâmica da plataforma faz com que lá este conteúdo se perca, embora fique registrado pra sempre nos servidores deles. Mas aqui eu tenho mais controle e, bem, aqui você está lendo este texto agora e pra mim é isso que importa.

A discussão

Então, começou com um desabafo de minha angústia ao ver tremenda injustiça acontecendo em meu país. Me deixa genuinamente chateado ver que isso está acontecendo e que tem gente achando normal.

Eu disse:

Se a essa altura do campeonato você ainda não se tocou que rolou um golpe e que está em curso um desmonte de nossa democracia, das duas uma: ou você é muito ignorante ou covarde.

Questionaram a existência de um golpe. E argumentaram a responsabilidade da presidenta e de seu partido no golpe (tipo, culpando a vítima? Eu realmente não entendi esta parte do argumento. As pessoas dizem que a culpa de o Temer estar ocupando ilegitimamente a presidência é do PT e de quem votou no PT para a presidência).

Acontece que são duas coisas diferentes. Uma foi a sequência de erros do PT de ter se associado ao PMDB esperando que isso fosse garantir maioria no congresso e, por consequência, governabilidade. Este foi um erro que custou muito caro. Fez com que muita gente demonstrasse sua insatisfação nas urnas em 2014 (pode me incluir neste grupo; o de pessoas que não votaram no PT no primeiro turno). Enfim. Esta associação com o PMDB não foi benéfica, pois trata-se de um partido sem qualquer orientação moral ou mesmo ideológica.

Mas isso não dá legitimidade ao Temer. Ele compunha a chapa. Quem votou na Dilma, não votou nela por causa do Temer. Arrisco dizer que muitos, como eu, votaram nela no segundo turno de 2014 APESAR do Temer.

Então, associar um com o outro como se fosse algo que passasse macio na garganta de quem votou não é o caminho.

Outra coisa (que valeria por si só, mesmo se o que expus acima fosse completamente equivocado) é a legitimidade do processo de impeachment.

Uma série de jogadas e associações – no mínimo estranhas – entre poder judiciário, legislativo e uma clara campanha difamatória que usou e abusou do poder financeiro e da mídia para desqualificar um governo legítimo (não estamos entrando no mérito aqui da qualidade da gestão Dilma, mas sim falando de sua legitimidade).

A questão do crime de responsabilidade é altamente contestável. Isso não está claro e muito menos plenamente definido. E temos que levar em consideração também os diferentes pesos e medidas usados para atacar Dilma e defender seus opositores.

O fato de se aprontar um verdadeiro escarcéu com relação a Dilma e Lula (quando na tentativa de nomeação do segundo para um ministério) e, logo na primeira ação do governo ilegítimo que assumiu o país vermos 7 ministros investigados na mesma operação que culminou no afastamento da Dilma sendo nomeados é um bom exemplo desses pesos e medidas diferenciados. Além de, claro, sinalizar a manipulação midiática visto que não se indignou com os 7 ministros como se indignou com a indicação de Lula. Seguindo aquela lógica, as pessoas que se indignaram com Lula deveriam estar sete vezes mais indignadas com a ação do Temer. Mas não, o que vemos é o silêncio.

O desmonte da democracia evidenciado (como se um presidente ilegítimo assumir não fosse o suficiente) na remoção do MinC e na sinalização de perda de direitos trabalhistas pra todos os lados (não percamos de vista o que está prestes a acontecer na saúde).

Sem mencionar o fato de que quem conduziu o processo (Eduardo Cunha) na câmara ser réu e ter contra si muito mais provas de atos ilícitos cometidos do que a Dilma.

E também sem mencionar que quem cuidou do processo no senado (Anastasia e Perrella, para citar os dois mineiros) não são pessoas limpas. O primeiro cometeu o mesmo crime de responsabilidade (do qual acusam Dilma) em Minas e o segundo teve um helicóptero de sua propriedade apreendido com 450 kg de pasta-base de cocaína – coisa que passou batida pela PF – evidenciam que houve, no mínimo, um viés que não deveria existir no processo.

Agora, se você não enxerga que isso é um golpe e que um governo sem qualquer representação de minorias, que extinguiu a secretaria que defendia as pessoas com deficiência não representa um retrocesso no Brasil, acho que nem adiantaria eu continuar. Vista sua camisa da CBF e seja feliz pagando um enorme pato.

Aí falaram que não era golpe e que as instituições brasileiras, em especial o judiciário, estão funcionando de maneira lisa e independente.

Respondi argumentando que concordamos em algumas coisas e discordamos em outras. Especialmente na percepção de que o judiciário está trabalhando. Se assim fosse, não seria nem sido iniciado o processo de impeachment porque o então presidente da câmara tem contra si provas irrefutáveis de atos ilícitos e não deveria estar no cargo naquele momento. O judiciário estaria funcionando se fosse aplicada a mesma lógica que impediu Lula de assumir um ministério quando SETE ministros de Temer que são investigados assumem ministérios.

Persistiram no argumento de que eu não deveria continuar questionando a legitimidade do processo; que o governo da Dilma era ruim e que tem que trocar tudo mesmo.

Do lado de cá, devo confessar, curto muito esta discussão. Acho que estes debates são muito importantes para que todos aprendamos mais.

E as argumentações contra o que falei são muito bacanas. Mas levam para uma interpretação de que “se eles (deputados e senadores) foram eleitos, tem carta branca para fazer o que for dentro da lei”. Há uma série de possíveis ciladas neste raciocínio.

A primeira é achar que o processo foi legítimo. Não foi. O STF não parece estar atento a isso (estou, claro sendo irônico aqui. O esquema dos pesos e medidas diferentes para a nomeação do Lula e dos 7 ministros sujos na lava-jato do governo Temer é uma clara indicação de que o STF tem algum interesse neste esquema).

A segunda delas é achar que era necessário destituir um governo legítimo sem que fosse apurado qualquer crime de fato. Isso é gravíssimo. O que ocorreu com um governo legítimo sem que qualquer coisa que o desabonasse criminalmente fosse provada é assustador. Por isso a comunidade internacional se move falando do ocorrido como golpe. Porque assim o foi.

A terceira cilada é achar que vai melhorar porque, afinal, tiramos (por meio de processos lícitos) um governo (alegadamente) corrupto. Isso está longe de ser verdade. Se a injustiça ocorrida não te toca de qualquer forma, tudo bem. Mas é ingenuidade demais pro meu gosto argumentar que o fim do MinC é algo positivo. Pode escolher o prisma que você quiser para analisar isso e não sairá um resultado bom. A mesma coisa acerca da secretaria nacional de promoção dos direitos das pessoas com deficiência, que foi extinta pelo ILEGÍTIMO governo do Temer.

A quarta é imaginar que é de responsabilidade de quem votou na Dilma o fato de o Temer estar aí. Ele praticamente jogou o projeto de governo de sua chapa no lixo quando assumiu. Na real, já havia se mostrado um crápula quando vazou aquela cartinha na virada de 2015-2016.

Pensar que isso é certo é a mesma coisa de se forçar ficar casada com uma pessoa que te traiu, porque assim havia sido acordado. Não é. Não é mesmo.

As respostas que recebi foram de que estava agindo meio que em clima conspiratório e que a mídia teria independência no país e isso indica que não há um golpe em curso.

Minha resposta sobre a questão da mídia foi a indicação de que uma ley de medios é do que precisamos. Basta acompanhar o ganhador do Pulitzer Glenn Greenwald no Intercept. Acho que vale  para ver como alguém de fora do país enxerga a presença da mídia no cenário político brasileiro.

E, da mesma maneira que expliquei anteriormente, são duas coisas diferentes:

1 – O governo da Dilma não era bom. Mas era legítimo. 2 – O processo não foi liso. De forma alguma. Só não vê quem não quer.

Ou seja. Estamos vivendo um golpe e muita gente tende a cerrar os olhos para isso. Afinal, às 17:00 tem natação. O que é uma pena.

Não entendeu a referência? Assista este vídeo.

Ah, e um adendo Pra finalizar: posar de isento é a pior coisa que você pode fazer neste momento. Se isentar implica em ignorar algo que está mudando os rumos de um país. Se isso não te afeta de alguma forma, putz… Nem sei mais o que dizer.

Mas os argumentos que defendem o ilegítimo governo de Temer despertam minha genuína curiosidade. Perguntei aos meus interlocutores o que os fazia pensar que não rolou um golpe. Questionei se eles não enxergam perdas que nos retrocedem no tempo nestas primeiras ações de um governo que não é legítimo.

Aí falaram que eu sou petista e que meus argumentos são atacar as pessoas contra o PT.

E, aí, a conversa acabou.