Algumas coisas que percebi durante o mês que usei o Nubank como meu principal cartão

Tenho o cartão de crédito do Nubank há alguns anos e priorizo o uso dele para fazer minhas compras pela internet. Ele se mostrou muito mais bacana do que o meu cartão anterior, do Santander. O que me fez priorizar o uso do Nubank para compras online foi o fato de repetidamente o Santander negar processar uma compra legítima que eu estava tentando fazer online e eu só conseguir fazer pelo Nubank. Você pode até argumentar que o Santander faz isso por segurança. Mas aí quando apareceu uma compra suspeita na minha fatura, novamente tive muito mais trabalho de cancelar e não ser cobrado indevidamente pelo Santander do que pelo Nubank.

Por isso (e claro, por uma série de outros motivos) o Nubank tem tomado de assalto (trocadilho infame) o mercado de serviços financeiros no país.

Recentemente foi habilitada pra mim a função de débito no Nubank. Achei interessante e resolvi passar um mês usando apenas o Nubank para débito e crédito. Foi julho. Assim que recebi meu salário, fiz um saque para garantir um $$ no bolso durante o mês (emergência, etc) e transferi todo o resto pra conta do Nubank; durante o mês usei apenas o cartão para débito e crédito.

A primeira coisa que senti foi um frio na barriga. Isso porque fiquei com medo de precisar fazer saques. Afinal, cada ida ao caixa 24h para tirar dinheiro de sua conta no Nubank vai te custar 7 dinheiros. Ou seja: se você vai tirar R$10, o que vai sair de sua conta são R$17. Assustador. Ainda bem não precisei fazer isso. Obviamente, como tenho conta no Santander, poderia tirar por lá. Isso me deixou mais tranquilo. Mas enfim.

Uma outra coisa que achei bacana foi usar apenas a aproximação do cartão para pagar coisas no débito. Achei muito legal e, ao mesmo tempo preocupante. Em alguns locais, apenas aproximando a compra já era processada. Em outros, além de aproximar, precisava digitar a senha. Em alguns, embora a maquininha tivesse o indicador de pagamento pro aproximação (algo que au acabei usando muito) os operadores nem sabiam do que se tratava. Fiquei um pouco preocupado com a questão da segurança. Qualquer pessoa com meu cartão poderia fazer comprar mesmo sem saber minha senha!!

Ao longo do m√™s tudo correu bem. Paguei todas as compras com o Nubank e foi uma experi√™ncia bem interessante. J√° nos √ļltimos dias de julho, ao fazer uma compra na loja do Leroy Merlin, o operador do caixa puxou papo quando fui pagar com d√©bito Nubank e ele me deu uma dica. Ele disse que estava usando a conta do Nubank tamb√©m, mas que fazia diferente. Ele passava todo o dinheiro para a sua conta do Nubank como eu. Mas ele n√£o usava o d√©bito. Apenas o cr√©dito. De acordo com ele, o dinheiro ficava rendendo l√° na conta e, quando chegava a fatura ele pagava com o dinheiro que estava l√°. Ele disse que sempre dava para ganhar alguma graninha extra assim. Achei que o caixa da Leroy era realmente muito mais esperto financeiramente do que eu. A cada dia, um novo aprendizado ūüôā

Enfim. O experimento foi legal para descobrir que eu realmente não preciso mesmo do Santander para viver. Embora a questão de pagar POR SAQUE seja bem ruim, tenho esperança de um dia isso se resolver e eu passar a usar apenas o Nubank.

Refletindo sobre abandonos de debates

Recentemente o cientista político Rudá Ricci abandonou um programa ao vivo na TV Horizonte. Assista abaixo o vídeo em que o Rudá abandona o debate.

O ocorrido me fez lembrar de outro acontecimento do passado recente: o abandono de um programa de Rádio pela Márcia Tiburi. Veja abaixo o vídeo deste episódio.

Entendo que os dois casos de abandono de debate tem motivação comum: a impossibilidade de discutir com pessoas que argumentam de uma maneira semelhante. Embora coincidentemente os dois debatedores que foram abandonados defendam uma mesma pauta, não é esse o ponto.

O ponto √© a maneira com a qual estas pessoas defendem suas ideias, a postura agressiva com a qual se colocam, a forma como desqualificam qualquer ponto de vista diferente dos seus e a impossibilidade total de desenvolver uma conversa sensata desta maneira. Em outras inst√Ęncias tamb√©m tive muita dificuldade de debater com quem se comporta desta forma.

N√£o tiro a raz√£o dos dois que abandonaram os debates. N√£o tenho sangue frio, n√£o sei se eu teria a mesma capacidade. Mas, enfim.

O que quero dizer é que achei uma pena que o Rudá usou de sua titulação para desqualificar o rapaz do PSL com quem debatia. Acho que não é esse o caminho. Não é a titulação de alguém que capacita a pessoa de trocar ideias. Conheço pessoas que não tem qualquer titulação e que são extremamente coerentes e interessantes de se conversar. Ao mesmo tempo, conheço doutores que são obtusos e não sabem conversar.

Acho que o que impede que exista uma conversa legal e produtiva nestes (e em v√°rios outros) debates √© que ningu√©m est√° aberto a ser convencido. Isso √© uma coisa complicada. Participar de um debate n√£o √© tentar convencer o outro. √Č apresentar suas argumenta√ß√Ķes e, principalmente, estar aberto a ser convencido. Se n√£o h√° a menor possibilidade de voc√™ ser convencido por seu interlocutor, melhor n√£o debater mesmo.

Enfim. Queria apenas refletir sobre isso.

Muito chata esta ‚Äútara‚ÄĚ por neg√≥cios que (apenas) d√£o lucro

N√£o que eu seja contra ganhar dinheiro, obviamente. O que me chateia √© essa tend√™ncia a valorizar – por parte de quem reporta sobre tecnologia e, como consequ√™ncia, por parte dos leitores dessas publica√ß√Ķes e dos usu√°rios em geral – apenas iniciativas tocadas por empresas que visam o lucro como solu√ß√Ķes vi√°veis para os problemas das pessoas. O exemplo mais recente √© o Parler (que foi reportado pelo Inside Social como sendo uma alternativa para o Twitter).

Por quê precisamos de uma alternativa ao Twitter?

A resposta √© simples (mas n√£o pequena). . . pelo motivo de aquele espa√ßo ser um ambiente t√≥xico, repleto de contas falsas e discurso de √≥dio, onde as conversas n√£o fluem como poderiam porque h√° manipula√ß√£o algor√≠tmica do alcance org√Ęnico das postagens (em outras palavras: nem todos os seus seguidores visualizam tudo o que voc√™ publica l√° √©, obviamente, voc√™ n√£o v√™ tudo o que as pessoas que voc√™ segue publicam. . . ) e, em breve, teremos os di√°logos potencialmente manipulados com respostas escondidas, o que pode -potencialmente – polarizar ainda mais as posi√ß√Ķes. Mas enfim. . . por isso que eu acho que √© importante que existam alternativas ao Twitter. O Parler √© apenas a mais nova dentre as possibilidades controladas por empresas com fins lucrativas. Recentemente vimos o Gab (que, tal qual est√° sendo reportado sobre o Parler, foi tomado por supremacistas brancos e o pessoal ‚Äúde bem‚ÄĚ da extrema direita). Enfim. . . precisamos que o di√°logo flua e que os ambientes sejam saud√°veis. Por isso precisamos de alternativas ao Twitter. O que eu acho √© que n√£o necessariamente esta alternativa ser√° proporcionada por uma empresa que vise o lucro. Ponho isso porque entendo que esta busca pelo faturamento acaba levando todo mundo a cometer os mesmos erros que as plataformas que hoje existem: por precisarem de $$, manipulam o feed e permitem a cria√ß√£o de contas falsas e rob√īs. Isso leva a sa√ļde de uma plataforma ladeira abaixo.

A alternativa j√° existe

Ent√£o. Acho que j√° existe uma excelente alternativa ao Twitter. Ela se chama Mastodon. √Č open source e federada. Nela, n√£o h√° manipula√ß√£o algor√≠tmica do feed e os di√°logos podem fluir. A √ļnica coisa que me inquieta l√° √© que √© poss√≠vel criar contas falsas. Acho que o Mastodon √© a alternativa perfeita ao Twitter. O fato de ser descentralizado √© muito bacana. Podemos criar uma inst√Ęncia de Mastodon privada e nela s√≥ deixarmos se cadastrar pessoas que existem de verdade. . . ou ent√£o controlar o ambiente expulsando aqueles que tragam discurso de √≥dio ou mentiras. . . enfim. Eu acredito que √© uma op√ß√£o infinitamente melhor. Mas o pessoal gosta de reportar e valorizar casos de empreendedores que desenvolvem produtos que s√£o voltados para seu enriquecimento. Uma pena. /rant

Tudo sobre tod@s

Já há algum tempo fiz a leitura do livro Tudo sobre tod@s, de autoria do prof. Sérgio Amadeu, como parte da preparação de uma conferência que acabei não proferindo (uma pena, aliás).

Recentemente recuperei esta leitura porque estou transformando o material que usaria na conferência em um artigo. Nesse sentido, decidi falar um pouco do livro aqui, como parte do processo de recuperação do assunto e, claro, para compartilhar e indicar a leitura.

Antes de qualquer coisa, devo dizer que o livro tem leitura bastante recomendada. O texto do professor Amadeu √© bastante interessante. Elucidativo sobre as amea√ßas dos dispositivos que carregamos em nossos bolsos especialmente no que diz respeito √†s capacidades de -por meio deles- empresas descobrirem cada vez mais sobre n√≥s e nossos h√°bitos.  

H√° muitas reflex√Ķes bacanas sobre privacidade e o autor nos apresenta o tempo todo aos argumentos e contra-argumentos que envolvem a privacidade e propriedade dos dados. Penso tratar de uma boa refer√™ncia sobre o tema escrita por um autor brasileiro.

Entretanto h√° que se considerar que, embora o texto apresente excelentes argumentos muito bem embasados e √≥timas recomenda√ß√Ķes e refer√™ncias, em outros momentos a reda√ß√£o informal e quase condescendente incomoda um pouco.

Outra coisa que me chamou a aten√ß√£o – desta vez de maneira bastante positiva – foi a busca por referencial da √°rea de gest√£o. Isso √© bastante legal por parte do autor. Apesar disso, me surpreendeu que, mesmo com esta busca, o texto trate de cria√ß√£o de necessidades; algo que √© bastante controverso. Mais f√°cil talvez seja formos em cria√ß√£o de desejos a partir de descobertas de tend√™ncias e culturas por meio de dispositivos de vigil√Ęncia como os smartphones. Al√©m disso a ideia de que as bolhas formadas em fun√ß√£o da atua√ß√£o de algoritmos nas plataformas seja algo pensado n√£o me parece encontrar pleno respaldo.

De qualquer forma, acho que é um texto muito importante e necessário. Creio que será encarado como uma leitura básica e imprescindível sobre o assunto.

Retomando este espaço

Iniciando o ano e também retomando um antigo hábito: o de escrever mais aqui. Isso vai mudar. Por 3 motivos bem simples:

1 – Precisamos reocupar nossos sites pessoais e deixar as plataformas mediadas por algoritmos.
Estamos abandonando espa√ßos v√°lidos de presen√ßa online (sites pessoais e blogs) e adotando plataformas outras (Facebook, Twitter, Instagram, Medium) que n√£o nos pertencem e que n√£o permitem que nosso conte√ļdo chegue √† totalidade de nossa audi√™ncia.

2 – As plataformas sociais fazem mais mal do que bem.
Esta pode ser novidade para voc√™, mas √© a minha mais recente motiva√ß√£o. E est√° baseada n√£o s√≥ em meus achados de investiga√ß√Ķes sobre plataformas sociais. Some a esses achados de minha autoria os escritos por Jaron Lanier e Cal Newport. Ambos, em seus livros demonstram que as plataformas sociais fazem mais mal do que bem para a gente. O primeiro est√° preocupado na quest√£o social enquanto o segundo, na produtividade.

3 – √Č divertido!
Escrever no meu próprio site e interagir com as pessoas aqui (por meio dos comentários e e-mail) é muito mais legal do que aquela chatice das plataformas. Aqui a coisa é mais legal (eu controlo o visual do que eu publico) e íntima.

Espero apenas manter o ritmo!

N√£o deixe decis√Ķes editoriais nas m√£os de plataformas

Durante esta primeira semana de Setembro estive em Joinville para participar do 41¬ļ Congresso Brasileiro de Ci√™ncias da Comunica√ß√£o – Intercom. L√°, um dos assuntos discutidos no GT de Comunica√ß√£o Digital foi o de que ve√≠culos de comunica√ß√£o acabam por buscar solu√ß√Ķes prontas (plataformas sociais como o Facebook) para distribuir seu conte√ļdo.

O professor Andre Pase lembrou tamb√©m, em uma discuss√£o bem interessante, que at√© adotar plataformas outras (como Disqus ou o pr√≥prio Facebook) para coment√°rios em seus sites representa esta a√ß√£o de buscar uma solu√ß√£o pronta para tratar seu conte√ļdo. Esta solu√ß√£o pode parecer sedutora. Afinal s√£o 2 bilh√Ķes de pessoas conectadas ao Facebook. S√≥ que apenas uma parte bem pequena delas curte sua fan page e uma fra√ß√£o menor ainda efetivamente v√™ o que voc√™ posta.

Para piorar, as coisas que voc√™ posta em sua fan page podem ser apagadas pelo pr√≥prio Facebook quando ele (por meio de seus algoritmos) julga que aquele conte√ļdo n√£o √© apropriado.

Este exemplo relatado pelo Nieman Lab mostra exatamente isso.

Está passando da hora de percebermos (todos nós) que a web é, em sua essência, social. Não precisamos destas plataformas proprietárias e voltadas exclusivamente para uma operação lucrativa para atuarmos em rede, num contexto social.

M√°s decis√Ķes de design impactam o faturamento

Ou: Como uma série de problemas de design impediram-me de fazer uma surpresa para minha mãe

Nesta semana estive na casa da minha m√£e numa r√°pida visita na ter√ßa de tarde. Chegando l√°, vi que havia inaugurado uma filial da Domino‚Äôs no bairro dela. Havia um folheto da filial na caixa de correio (a m√≠dia offline ainda funciona, claro! ūüôā ). No folheto, um alerta para a promo√ß√£o de “leve 2 e pague 1” na ter√ßa. Resolvi surpreender minha m√£e e fazer um pedido de pizza para ela mais tarde.

Tentei pelo telefone. Infelizmente, a atendente da loja n√£o entendeu que eu queria pagar as pizzas antecipadamente. De verdade. Eles n√£o conseguiram me cobrar pelo telefone. O pagamento deveria ser feito na entrega. Somente na entrega. Ah, e outra coisa: Eu estava ligando por volta das 17:30. N√£o poderia deixar uma entrega agendada. Se eu liguei naquela hora, o pedido teria que sair da loja assim que ficasse pronto. Eles n√£o podiam (ou n√£o conseguiram) fazer o pedido naquela hora e preparar a pizza e entregar mais tarde. De fato, muitas informa√ß√Ķes, n√©?

Ent√£o. Fazer minha m√£e pagar pela pizza na entrega seria um presente de grego e isso eu n√£o queria.

Tentei de outra forma. Pus-me a instalar o app da Domino‚Äôs no meu celular. Te dizer que foi uma luta. O design da intera√ß√£o do aplicativo √© muito fraco. Saltar de campos no formul√°rio de cadastro √© um supl√≠cio! Al√©m disso, as minhas a√ß√Ķes de toque no app ficavam sem resposta. Eu tocava nos bot√Ķes e n√£o tinha qualquer tipo de feedback. Um exemplo: no primeiro uso do app, somos incentivados a cadastrar endere√ßos para entrega. Eu preenchia os dados e tocava em ‚Äúcadastrar‚ÄĚ. Como n√£o tinha resposta, toquei repetidas vezes. Depois de desistir, fui ver meus dados e um mesmo endere√ßo havia sido criado repetidas vezes.

Outro problema do aplicativo da Domino’s foi o pagamento. Fiz o processo de cadastro à duras penas e, depois, procedi com o pedido. Ao fazê-lo, fui levado a crer (com um botão para escolher a forma de pagamento) que poderia pagar pelo app. Ledo engano. O pedido é fechado sem que conseguisse fazer o pagamento pelo app.

Depois de incorrer neste erro, liguei para a loja para pedirem que incluíssem o pagamento no pedido. Assim, minha mãe não seria cobrada quando as pizzas chegarem em sua casa. Novamente, não foi possível. Tiveram que cancelar o pedido na loja.

Voltei ao app e cadastrei um cart√£o de cr√©dito em minha conta. Refiz o processo. Sem sucesso. Na segunda vez que tive que ligar para a loja para cancelar o pedido e evitar que minha m√£e fosse cobrada, a atendente disse: ‚Äúpor que voc√™ n√£o faz o pedido pelo ifood?‚ÄĚ

Pois √©. A funcion√°ria de uma marca pedindo para que eu n√£o use o app desta marca, mas sim o app de outra empresa. Tudo isso porque, em algum momento, p√©ssimas decis√Ķes de design foram tomadas.

Como errar na web: tire o controle das m√£os dos usu√°rios

Tirar o controle das mãos do usuário pode ser a pior coisa que você pode vir a fazer com seu produto web.

Na web, o consumo da informa√ß√£o √© dado de forma aut√īnoma, por excel√™ncia. Isso significa que o usu√°rio consome a informa√ß√£o de maneira individual, com o controle do processo. Ele decide o que vai ver, ler, assistir ou ouvir.

No passado, muitos designers desrespeitavam esta lógica ao conceberem janelas em tela cheia removendo os controles do navegador. Numa promessa de experiência imersiva, acabavam por tirar o controle das mãos do usuário. Só que a web não é um quiosque de shopping e, ainda bem, não vemos mais este tipo de experiência por aí.

S√≥ que outro tipo de iniciativa que tira o controle das m√£os dos usu√°rios come√ßou a aparecer nos √ļltimos anos e seu representante mor √© o autoplay de v√≠deos em feeds do facebook ou como sequ√™ncia de um v√≠deo do Youtube. O servi√ßo ‚Äúentende‚ÄĚque, se voc√™ assistiu um determinado v√≠deo at√© o final, certamente vai querer assistir alguns outros na sequ√™ncia. Isso √© terr√≠vel. Tira o controle do usu√°rio no processo, empurra conte√ļdo que n√£o necessariamente √© do interesse dele e ainda mascara n√ļmeros de audi√™ncia.

Em alguns sites com conte√ļdo predominantemente textual isso tamb√©m ocorre com certa frequ√™ncia, o que √© lament√°vel. Acabo de me deparar com o exemplo que gravei em v√≠deo e disponibilizo abaixo.

https://youtu.be/GXhSHQ9JbdA

O TechCrunch te catapulta para a p√°gina inicial do site depois de ler uma not√≠cia. Simplesmente rid√≠culo. Ao terminar de ler uma mat√©ria o site automaticamente sai da p√°gina em que voc√™ estava e vai para a p√°gina inicial. Perceba no v√≠deo que nem h√° a oportunidade de voltar e explorar mais o conte√ļdo; talvez ver coment√°rios e postar alguma considera√ß√£o. P√©ssimo exemplo.

A quest√£o da extrema informalidade dos profissionais de Publicidade

Então. (ultimamente tenho começado muitas frases e até e-mails assim…)

H√° um bom tempo tenho falado (√†s vezes sozinho, outras, acompanhado) que falta profissionalismo na publicidade. No digital, nem se fala. Mas, mesmo j√° abordando este tema h√° tempos, a quest√£o persiste. Em sala de aula isso me afeta e incomoda quando alunos (publicit√°rios em forma√ß√£o) deixam trabalhos para serem feitos na √ļltima hora, pedem adiamento de prazos e acabam entregando produtos que poderiam ter ficado muito mais bacanas se alguns cuidados b√°sicos tivessem sido tomados. Profissionalmente vemos jobs sendo perdidos, pagamento abaixo do mercado e v√°rios outros comportamentos que afetam negativamente a imagem dos publicit√°rios‚Ķ

Peraí, Caio. Você também já foi aluno! Pega leve…

Pois √©. E tamb√©m j√° procrastinei muito e entreguei muita coisa abaixo da cr√≠tica. Mas aprendi que se eu quisesse ser levado a s√©rio, precisava me levar mais a s√©rio. E √© esse excesso de pedidos para ‚Äúpegar leve‚ÄĚ que configura um dos sintomas que quero tratar. Pode parecer papo de velho (e √©), mas encarar-se com mais seriedade e tamb√©m as nossas atividades com mais seriedade pode fazer toda diferen√ßa. Eu acho que o ambiente da universidade √© um bom lugar para tentar corrigir este comportamento. Especialmente porque √©, justamente depois que se forma, que o profissional come√ßa a adotar algumas pr√°ticas que podem ser muito ruins para ele na sua atua√ß√£o profissional.

Vamos começar com a questão da disciplina para executar trabalhos

Ent√£o. Como eu falei acima, √© muito comum que os alunos entreguem trabalhos feitos na √ļltima hora. Costumo brincar que, se o trabalho √© para ser entregue √†s 23:59, o aluno come√ßa a fazer √†s 23:30. Isso depois de ter tentado um e-mail pedindo mudan√ßa de prazo √†s 23:15 e n√£o ter obtido resposta at√© as 23:29. Brincadeiras √† parte, a quest√£o √© que se entrega, normalmente, um texto ou uma pe√ßa que foi a primeira coisa que se conseguiu fazer. Ou seja: faz-se uma vers√£o e boas. Est√° entendido que est√° pronto para entregar. S√≥ que n√£o √© bem assim. Normalmente a primeira vers√£o de uma coisa cont√©m v√°rios erros e est√° longe de ser a melhor vers√£o daquilo. Escrever um texto ou conceber uma pe√ßa √© uma atividade que demanda o exerc√≠cio da cria√ß√£o. E este exerc√≠cio n√£o se d√° num √ļnico sprint. ¬†A atividade de fazer, dar um tempo, olhar outras coisas e retomar a atividade faz com que a gente tenha uma outra vis√£o sobre aquilo que fez. Al√©m disso, proporciona um distanciamento que nos ajuda a encontrar erros.

Pois bem, mas como fazer isso, Caio?

A primeira coisa √© n√£o deixar para fazer na √ļltima hora. Comece a fazer a tarefa (pode ser a cria√ß√£o de um layout, a reda√ß√£o de um texto, enfim‚Ķ qualquer coisa) com anteced√™ncia. Pense e planeje-se de forma a poder trabalhar por mais tempo naquela tarefa. Vai por mim. Se voc√™ come√ßar a fazer qualquer atividade no momento em que ela foi designada a voc√™, dificilmente voc√™ precisar√° ficar atravessando madrugadas fazendo algo perto do fim do prazo. E atravessar madrugadas √© algo que muitos profissionais da publicidade se vangloriam de ter que fazer. E eu tenho verdadeira raiva deste comportamento. Ningu√©m precisa trabalhar at√© de madrugada se planejar bem aquilo que tem para fazer. Me d√° especial raiva porque eu j√° deixei isso me atrapalhar muito. Se voc√™ planeja bem a execu√ß√£o de um trabalho, menos horas extras ser√£o necess√°rias e menos madrugadas ser√£o comprometidas. Al√©m disso, voc√™ ter√° tempo para rever o que fez e melhorar os produtos que est√° criando. E isso vai ser muito bom para a qualidade final daquilo que estiver fazendo.

Outra coisa: dê-se o valor

√Č muito comum esse lance de fazermos as coisas de √ļltima hora, porque n√£o nos deram prazos bacanas para executar a tarefa. Quando for este o caso, um sinal de que voc√™ est√° dando valor a si mesmo √© n√£o aceitar fazer naquele prazo t√£o pequeno. √Č comum os profissionais aceitarem fazer isso porque n√£o querem ‚Äúperder o cliente‚ÄĚ. S√≥ que, ao fazer algo com t√£o pouco prazo, a qualidade final vai ser p√©ssima e voc√™ vai perder o cliente da mesma forma, s√≥ que, desta vez, porque o trabalho ficou ruim. E a√≠, a culpa n√£o vai ser do prazo (afinal, voc√™ aceitou fazer), sacou? A culpa vai ser sua.

Aceitar fazer uma coisa num prazo desumano √© n√£o se dar o valor. √Č n√£o se respeitar. Outra coisa que entra no montante da falta de respeito √© aceitar fazer reuni√Ķes fora do expediente (porque esta √© a hora que o cliente pode te receber). Uma coisa que eu aprendi num dos melhores lugares que trabalhei foi: se o cliente n√£o quer te receber durante o expediente, √© porque ele n√£o acha que comunica√ß√£o √© uma coisa importante pra ele. Esse j√° √© um sinal de que ele n√£o vai te respeitar e nem respeitar o seu trabalho. Faz parte deste bolo do respeito a si mesmo e ao seu trabalho tamb√©m parar de participar de ‚Äúconcorr√™ncias‚ÄĚ.

Na comunica√ß√£o isso √© muito comum. E √© p√©ssimo para os profissionais. Empresas chamam tr√™s ou cinco profissionais ou ag√™ncias e pedem que executem algo para, s√≥ depois, escolher o que acharam melhor. Estas ‚Äúconcorr√™ncias‚ÄĚ (as aspas servem para indicar que s√£o falsas concorr√™ncias, sem crit√©rios claros e nem sombra do que lembraria um edital) s√£o muito ruins para o neg√≥cio da comunica√ß√£o, porque acabamos trabalhando de gra√ßa (outro sinal claro de que n√£o nos damos valor como profissionais √© quando nos deixamos ser enganados assim).

Não há problema nenhum em trabalhar de graça, desde que seja por vontade própria (por exemplo, se você quer fazer a comunicação de uma ONG sem cobrar nada). O que é péssimo é a agência ou profissional se deixar levar fazendo isso corriqueiramente.

Pense como seria isso em outras profiss√Ķes. Voc√™, por acaso, vai ao dentista e, na consulta, fala que tamb√©m vai a outros dois profissionais e, s√≥ vai pagar pelo servi√ßo de quem ‚Äúachar que √© o melhor profissional‚ÄĚ? Claro que n√£o, n√©? O dentista n√£o oferece consulta gratuita e muito menos o m√©dico. O arquiteto n√£o faz projeto ‚Äúno risco‚ÄĚ e o engenheiro tamb√©m n√£o. Mas porque os publicit√°rios fazem coisas assim? Eu arrisco dizer que √© porque eles n√£o se levam a s√©rio e n√£o se d√£o o valor.

Por fim, um √ļltimo comportamento que me d√° nos nervos e que √© um sintoma desta desvaloriza√ß√£o √© o fato de apresentar tr√™s vers√Ķes de uma pe√ßa pro cliente escolher. Acho isso o fim da picada. Nada errado em fazer tr√™s vers√Ķes e at√© levar para a apresenta√ß√£o para ter algo na manga caso a apresenta√ß√£o daquela pe√ßa que voc√™ achou a mais apropriada, der errado. Mas j√° mostrar de cara tr√™s vers√Ķes (de uma marca, por exemplo) para o cliente escolher √©, pra mim, um atestado de incompet√™ncia.

√Č algo como dizer “toma, olha essas tr√™s op√ß√Ķes e me diga qual a que mais gostou, porque nem pra isso eu sirvo”. Para me ajudar a explicar, novamente fa√ßo compara√ß√£o com o trabalho do m√©dico. O m√©dico mostra tr√™s vers√Ķes do diagn√≥stico para a gente escolher qual √© o melhor? N√£o, n√©? O que ele oferece, quando √© poss√≠vel, s√£o op√ß√Ķes para o tratamento. Mas ele n√£o as apresenta de cara pra que fa√ßamos uma escolha. Ele mostra aquela que julga ser a mais adequada e, depois, se for poss√≠vel, fala que existem alternativas e, cada uma delas tem seu ponto positivo e ponto negativo.

Todas as vezes que me vi nesta situa√ß√£o com um m√©dico, ele me disse que a primeira op√ß√£o tinha uma justificativa bem plaus√≠vel. E me apresentava o embasamento para aquela escolha. Acontece que em mais de 90% dos casos os publicit√°rios n√£o tem o embasamento para justificar sua escolha e recomenda√ß√£o. √Č tudo baseado no achismo e no gosto pessoal. Da√≠, o cliente acaba achando que se √© algo baseado no gosto pessoal, ele , por ser dono do neg√≥cio, entende mais e tem o ‚Äúgosto mais apurado‚ÄĚ. A√≠, meu amigo, ferrou.

Quando chega a esse ponto, o publicit√°rio ou a ag√™ncia vira apenas manobrista de layout; aumentando a marca e ‚Äúchegando o texto mais para a direita‚ÄĚ. O fato √© que, na maioria esmagadora das vezes, o publicit√°rio n√£o sabe argumentar como aquilo que ele fez vai resolver o problema do cliente.

O publicit√°rio acha que defender um conceito √© uma quest√£o de “l√°bia”. Isso porque ele n√£o sabe. Porque ele n√£o fez pesquisa. Por que a sua proposta n√£o tem subst√Ęncia. A√≠, acha que tudo √© na base do “Rolando Lero”. E sabe por qual motivo que o publicit√°rio n√£o tem argumento ou subst√Ęncia para defender sua escolha? Acertou, porque ele come√ßou a fazer aquela pe√ßa meia hora antes de apresentar pro cliente. A√≠, n√£o deu tempo de fazer pesquisa (te dizer que faz muito tempo que vi uma proposta de a√ß√£o de publicidade efetivamente baseada em pesquisa). N√£o deu tempo de embasar as escolhas. N√£o deu tempo de nada. Depois, claro, n√£o d√° pra reclamar. E voltamos a quest√£o inicial.

O meu ponto é: enquanto isso persistir, publicitário vai ser tratado do jeito que é. E eu acho que a origem destes problemas é justamente porque ele não se respeita e não faz as coisas com seriedade. Claro. Tem aqueles que preferem trabalhar de madrugada e também os gênios que fazem uma versão perfeita logo na primeira tentativa. Mas estes são pontos fora da curva.

O normal mesmo √© termos o comportamento que mina o sucesso da atividade. √Č a participa√ß√£o em ‚Äúconcorr√™ncias‚ÄĚ e o trabalho executado sem pesquisa, feito de forma tocada, na √ļltima hora. Enquanto estes comportamentos forem tratados como a normalidade, tamb√©m os publicit√°rios e as ag√™ncias continuar√£o sendo tratados como s√£o. Talvez isso n√£o seja uma causa direta, mas minha leitura √© a de que, de certa forma, interfere, sim, no jeito que as pessoas externas √† profiss√£o l√™em os publicit√°rios.

Enfim… Essa é a minha questão, na verdade a minha preguiça, com essa extrema informalidade dos publicitários.

Dica de leitura: Introdução à Análise de Redes Sociais Online

Em dezembro de 2017 tive contato com a publica√ß√£o ‚ÄúIntrodu√ß√£o √† An√°lise de Redes Sociais Online‚ÄĚ, escrito pela pesquisadora Raquel Recuero e disponibilizado gratuitamente pela EDUFBA (http://www. lab404. ufba. br/?p=3223).

Trata-se de iniciativa bem interessante e necessária. Como sabemos, o tópico da Análise de Redes Sociais (ARS) ainda é muito pouco explorado no país; em especial na Comunicação. Há muito o que fazer e estudar. Muita coisa por descobrir e explorar.

√Č justamente nesse sentido que se faz a recomenda√ß√£o da leitura. Tendo em vista que o objetivo da autora √© apresentar o tema e m√©todos poss√≠veis de investiga√ß√£o, creio ser interessante para se familiarizar com o tema. Nas palavras da autora:

‚ÄúO que √© relevante aqui √© perceber que a ARS existe dentro do arcabou√ßo de m√©todos poss√≠veis para que pesquisadores das √°reas que tradicionalmente n√£o trabalham de modo t√£o emp√≠rico e com tantos dados (como √© o caso da Comunica√ß√£o) possam se munir de modos de an√°lise e compreender elementos mais amplos em seus dados. Nosso objetivo, portanto, √© ampliar a compreens√£o desses modos e permitir que a ARS seja mais popularizada entre os pesquisadores, de modo especial, entre aqueles que trabalham com dados provenientes do ciberespa√ßo. ‚ÄĚ

O livro tem leitura bastante f√°cil e √© bem direto ao assunto, apresentando a origem das informa√ß√Ķes e indicando caminhos.

Tenho apenas duas ressalvas com relação ao texto. Tecnicalidades que não atrapalham o objetivo da autora e muito menos o entendimento do assunto.

A primeira delas √© com rela√ß√£o ao conceito de buraco ou lacuna estrutural (structural hole). Embora Recuero (2017) cite bem acertadamente Burt para fundamentar o conceito, creio que vale observar que este mesmo autor apresenta o conceito de lacuna estrutural (Burt, 1995) como sendo a posi√ß√£o de um ator que √© a √ļnica liga√ß√£o entre diferentes grupos. Nesse sentido, se este ator se ausenta, h√° a cria√ß√£o da lacuna (ou buraco). Tratei deste assunto na ocasi√£o em que procedi com o mapeamento da rede de pesquisadores em Administra√ß√£o no pa√≠s (Oliveira, 2013). Na ocasi√£o apresentei o conceito a partir de Burt (1995) com a liga√ß√£o a Coleman (1988) da seguinte forma:

‚ÄúAo compreender o capital social como um recurso da rede buscado pelos atores e, portanto, motivador de suas a√ß√Ķes, deve-se entender tamb√©m que a posi√ß√£o ocupada na rede lhes proporciona capital social. Assim sendo, √© poss√≠vel enxergar que determinado ator que est√° posicionado na estrutura como a √ļnica liga√ß√£o entre dois grupos que compartilham interesses ocupa um espa√ßo conceitual de destaque, pois √© ele quem controla o acesso a recursos por parte dos dois grupos. A esse ator atribui-se o t√≠tulo de lacuna estrutural (Burt, 1995).

Ocupar uma posi√ß√£o de lacuna estrutural na estrutura da rede n√£o √© o √ļnico ganho ou recurso proporcionado a determinado ator. Reputa√ß√£o, controle de informa√ß√£o, confian√ßa e coopera√ß√£o s√£o tamb√©m recursos ou ganhos que se pode obter a partir de suas rela√ß√Ķes e posicionamentos na rede (Coleman, 1988). ‚ÄĚ

A segunda questão é ainda mais sutil e refere-se a questão das redes de dois modos. Como meu trabalho de mapeamento da rede de pesquisadores em Administração no Brasil tratou disso, entendo que as redes de dois modos são um pouco diferentes daquilo que é apresentado no livro. Recomendo a leitura desta postagem do Tore Opsahl (https://toreopsahl. com/tnet/two-mode-networks/defining-two-mode-networks/) para mais detalhes sobre as redes de dois modos (o autor, inclusive, exemplifica as redes de colaboração científica como redes de dois modos, como fiz. Tanto ele quanto eu usamos Newman (2001), Wasserman e Faust (1994), dentre outros, para embasamento.

Como disse, estas diferenças no modo de enxergar o que é uma lacuna estrutural e uma rede de dois modos não atrapalham e nem desabonam o texto. A leitura do livro é bastante recomendada. Fica aí uma dica bem interessante para quem quer, rápida e objetivamente, se introduzir ao tema da Análise de Redes Sociais.

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Referências:

Burt, R. (1995). Structural holes: The social structure of competition. Harvard University Press.

Coleman, J. (1988). Social capital in the creation of human capital. American Journal of Sociology, 94

Newman, M. E. J. (2001). Scientific collaboration networks. II. Shortest paths, weighted networks, and centrality. Physical Review E 64, 016132.

Oliveira, C. C. (2013). Coopetição em redes interpessoais: relacionamentos coopetitivos na rede de pesquisadores brasileiros em Administração. Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais, Belo Horizonte, MG, Brasil.

Recuero, R. (2017). Introdução à análise de redes sociais online. EDUFBA, Salvador, BA, Brasil.

Wasserman, S. , Faust, K. (1994). Social Network Analysis: Methods and Applications. Cambridge University Press, New York, NY.